- Costuma-se chamar de “relacionamentos tóxicos” aqueles vínculos em que, em vez de favorecerem o crescimento, acabam por restringir, adoecer e, muitas vezes, humilhar os envolvidos. Algo que, em princípio, deveria ser fonte de amparo e vitalidade, se transforma em um campo de repetição de sofrimento, onde um ou ambos os parceiros se veem impedidos de desenvolver suas próprias potencialidades.
Do ponto de vista psicanalítico, talvez seja importante suspender, por um momento, o rótulo “tóxico” e perguntar: o que, em cada sujeito, encontra morada nesse tipo de relação? Isso porque tais vínculos não se sustentam apenas por acaso ou azar. Eles frequentemente se organizam a partir de padrões inconscientes, muitas vezes enraizados nas primeiras experiências emocionais da vida.
Há pessoas que, sem se darem conta, associam amor a sofrimento, cuidado a controle, proximidade a invasão. Quando essas associações se instalam precocemente, tornam-se uma espécie de “mapa afetivo” que orienta escolhas futuras. Assim, o que de fora parece claramente prejudicial pode, internamente, carregar uma estranha familiaridade. E aquilo que é familiar, ainda que doloroso, tende a ser buscado, repetido, mantido.
Também é comum encontrarmos, nesses vínculos, ideais rígidos sobre o amor: a crença de que é preciso suportar tudo, de que amar é não desistir nunca, de que sair da relação equivale a fracasso. Esses ideais, muitas vezes, encobrem angústias profundas — como o medo do abandono, da solidão ou mesmo do encontro com aspectos desconhecidos de si mesmo. Permanecer na relação, ainda que custoso, pode funcionar como uma defesa contra essas experiências internas mais ameaçadoras.
Outro ponto importante diz respeito à dinâmica de dependência. Em muitos desses relacionamentos, constrói-se uma espécie de economia psíquica em que um sustenta o outro, seja ocupando o lugar de quem cuida excessivamente, seja de quem precisa ser cuidado. Essa complementaridade pode dar uma sensação de sentido e identidade, ainda que à custa de uma grande limitação da liberdade emocional de ambos. Romper esse arranjo implica, não raro, em enfrentar um vazio: quem sou eu fora dessa relação?
A dificuldade de sair, portanto, não se explica apenas por fatores externos, mas por um entrelaçamento profundo entre o vínculo atual e a vida psíquica de cada um. Sair de um relacionamento assim pode significar abrir mão não apenas do outro, mas de uma forma conhecida de existir, de amar e até de sofrer.
Paradoxalmente, é justamente esse sofrimento repetido que pode, em algum momento, tornar-se insuportável o suficiente para produzir uma mudança. Quando há espaço para pensar, o sujeito pode começar a reconhecer esses padrões, não como um destino inevitável, mas como algo que pode ser transformado.
Não se trata de prometer relações ideais ou livres de conflito, o que seria ilusório. Trata-se, antes, da possibilidade de construir vínculos em que haja espaço para o crescimento, para a diferença e para a própria vida psíquica se expandir. Em vez de aprisionar, o encontro com o outro pode, então, tornar-se um campo de criação — algo que não elimina o sofrimento, mas o torna mais pensável e, sobretudo, menos destrutivo. - Sylvio do Amaral Schreiner, publicado na coluna "Mundo Vivo" na edição de 4 de maio 2026 na Folha de Londrina.
.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário