Tenho formação acadêmica em Marketing.
QUAL A SUA TRAJETÓRIA PROFISSIONAL? Minha
trajetória profissional é uma coleção de desvios. Já fui de servente de
pedreiro a professor de inglês. Passei pelo desenho arquitetônico, por
escritórios de
contabilidade, pelo comércio exterior e pelas vendas, sempre em
movimento. No fundo, é menos sobre profissão e mais sobre inquietação.Na comunicação, encontrei um eixo. Trabalhei em
diversas emissoras de rádio, entre elas Metropolitana FM, Cidade FM,
Alternativa FM, Ilha FM e a Musical FM, minha casa há mais de vinte anos.
O QUE FAZ HOJE? Atualmente trabalho como radialista, professor de inglês e escritor.
O QUE MAIS GOSTA DE FAZER? Rádio e literatura são
minhas grandes paixões. Não por acaso, dedico boa parte da minha vida a elas. Também gosto de lecionar inglês, embora sempre esta atividade esteja em segundo plano.DESDE QUANDO É APAIXONADO PELA VIDA E COMUNICAÇÃO? Pela
vida, acredito que desde que
nasci, pelo menos é o que minha mãe costuma dizer
(risos). Já a comunicação sempre me fascinou. Desde muito jovem, passava horas
ouvindo programas de rádio, imaginando-me do outro lado da sintonia. Para mim,
era um mundo mágico, cuja porta de entrada parecia estreita demais para as
minhas pretensões.Naquela época, para ser locutor, era quase
obrigatório ter um vozeirão grave, algo que eu definitivamente não tinha. Minha
voz sempre foi de timbre médio. Ainda assim, não perdi as esperanças.
Eu ouvia a rádio Bianca FM 92,5, de Umuarama, e
gostava de toda a equipe. Mas havia um locutor em especial que me encantava:
Adriano Shock (foto abaixo).A voz, a forma de se comunicar, o carisma, a inteligência, a
cultura musical, tudo nele me prendia. Seu estilo fugia do padrão e, talvez por
isso, me mostrava que havia outros caminhos possíveis.
Ainda não tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente,
mas somos “amigos” nas redes sociais. Obrigado, Adriano. Quem sabe um dia a
gente ainda tome uma cerveja juntos.!QUAL DECISÃO MARCOU SUA HISTÓRIA? Renunciar a um salário razoável em um
escritório de contabilidade para entrar no rádio ganhando o mínimo. Foi um
salto no escuro e, ainda assim, um dos acertos mais conscientes que já fiz.
Quando acredito em um sonho, não negocio: arrisco.
COMO É A EXPERIÊNCIA DE SER ESCRITOR? QUAL ESTILO? Ser escritor, para mim, é
uma forma de inquietação permanente. Escrevo porque certas perguntas não me
deixam em paz. E, nesse sentido, a literatura não é apenas expressão, é também
confronto. Interesso-me por aquilo que desloca, que causa estranhamento, que
obriga o leitor a sair do lugar comum. Porque é no desconforto que a reflexão
começa. Escrevo ficção, e busco uma narrativa que se aproxime do pensamento,
que dissolva fronteiras entre narrador e personagem. Por isso, recorro com
frequência ao estilo indireto livre, como uma forma de tornar a voz mais
íntima, mais ambígua e, talvez, mais humana. SE FOSSE PREFEITO QUAIS SERIAM SEUS PROJETOS? A
educação seria o centro de tudo. É dela que nasce o pensamento crítico, e sem
ele não há sociedade que se sustente. Meu foco estaria em investir de forma
consistente na formação, na valorização dos professores e em estruturas que
realmente permitam aprender, não apenas passar pelo sistema.
COMO AVALIA A NOSSA COMUNICAÇÃO? A comunicação, especialmente no rádio, ainda
carrega vícios antigos. Há quem não tenha se reinventado, seja por resistência,
seja por acomodação. E isso atravessa tudo: da locução ao noticiário. O
problema é o apego ao que já funcionou. O que foi consagrado vira muleta. Mas
comunicação não pode viver de repetição. Ela precisa se mover, mesmo quando
isso incomoda. Eu escolhi o caminho do coloquial. Não por descuido, mas por
intenção. Falar como as pessoas falam não empobrece a língua, aproxima. Às
vezes, um “cê”, um “tá” ou um “bora” dizem mais do que qualquer construção
impecável. Prefiro o risco de soar simples ao erro de soar artificial. Porque,
no fim, comunicação sem verdade não se sustenta.
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O NOSSO RÁDIO DE CADA DIA CONTINUA CADA VEZ MAIS “VIVO”?
Sim, na minha opinião, o rádio segue vivo na vida das pessoas. Não com a mesma
força de antes, é verdade, mas ainda ocupa um espaço relevante no cotidiano de
muita gente. O público mais jovem hoje dispõe de inúmeras alternativas de
entretenimento, o que naturalmente desloca o rádio do centro. Ainda assim, não
acredito em seu desaparecimento. O rádio sobrevive, e pode evoluir. Para isso,
porém, é necessária uma reciclagem profunda dos comunicadores. Sem renovação de
linguagem, de abordagem e de mentalidade, o meio corre o risco de se acomodar.
E comunicação que se acomoda perde relevância.

O QUE MAIS TE MOTIVA NA COMUNICAÇÃO? Sou
naturalmente motivado pelo que faço. A música sempre foi um motor importante
para mim. Durante o programa, mergulho nas canções, muitas vezes no volume
máximo, seja nas que estão programadas, seja nas que chegam pelos ouvintes. Mas
há algo que vai além disso: o vínculo com as pessoas. O carinho que recebo,
inclusive de quem nunca vi pessoalmente, tem um peso enorme. Muitos me tratam
como um amigo, como alguém que faz parte da rotina, quase da família. Saber que
posso contribuir, ainda que de forma simples, para a alegria de alguém que
encontra no rádio companhia e algum alento para o dia já é, por si só, uma
grande motivação.

E TECNOLOGIA? Isso é ótimo. Nada na vida é estático. As pessoas mudam, os hábitos mudam, e a
comunicação acompanha esse movimento. No rádio, não foi diferente. A tecnologia
ampliou possibilidades, transformou a forma de consumir conteúdo e reposicionou
o papel do comunicador. Hoje, é natural que as pessoas ouçam suas músicas
preferidas em plataformas digitais. Isso não se combate. O caminho é outro:
adaptar-se. Criar formas de entreter, de se conectar, de interagir. Valorizar
quem permanece fiel e entender que o rádio, mais do que nunca, precisa oferecer
algo que vá além da música. A mudança não é uma ameaça. É matéria-prima.
COMO COMEÇOU A SUA CARREIRA NA LITERATURA? Minha relação com a literatura começou cedo, ainda na
infância, quando tive meus primeiros contatos com os livros. Com o tempo, a
leitura deixou de ser apenas interesse e passou a se transformar em
necessidade. Escrever veio como consequência desse processo, quase como uma
extensão natural de quem lê com intensidade. A partir daí, fui desenvolvendo
minha própria voz, sempre movido pela inquietação e pelo interesse em temas que
provocam algum tipo de deslocamento no leitor. Entre os trabalhos publicados,
destaco A outra sombra (2013), As paredes eram brancas (2020) e Dias
de lua (2025), além de contos e poemas presentes em diversas antologias.
Esses trabalhos consolidam a escrita como parte essencial da minha trajetória.VOCÊ FAZ PARTE DA ACADEMIA MOURÃOENSE DE
LETRAS. Sim, minha entrada na Academia
Mourãoense de Letras foi, antes de tudo, um movimento natural dentro do caminho
que venho construindo na literatura. Recebi uma votação expressiva com respeito
e senso de responsabilidade, entendendo o peso simbólico e cultural que a
instituição carrega. Para mim, fazer parte da Academia não é um ponto de
chegada, mas de continuidade. Significa estar ao lado de pessoas que também
acreditam na força da palavra e no papel transformador da literatura. Acredito
que posso contribuir mantendo uma atuação ativa, incentivando a leitura,
valorizando a produção literária e, principalmente, buscando aproximar a
literatura das pessoas. Torná-la menos distante, mais viva, mais presente no
cotidiano.
UM POEMA DE MAX MORENO
“Sessenta e poucos”
Fui
breve demais.
faltavam
razões,
um
minuto de paz.
Parti
cedo demais,
ainda
restavam sonhos,
sobravam
emoções,
deixadas
para trás.
O
tempo avançou,
o
frescor recuou,
a
pele enrugou,
o
coração palpitou.
Parou.
Ah,
se dependesse de mim.
Sessenta
e poucos.
Fui
breve demais.
E OS DESAFIOS DA COMUNICAÇÃO E DA LITERATURA? Um dos
grandes desafios da comunicação é
reconhecer, de forma concreta, a necessidade
de evolução. Vivemos um novo tempo, com novas dinâmicas de consumo e de
atenção, o que exige uma visão mais ampla e estratégica do setor. Há espaço
para diferentes formatos e linguagens, mas cada segmento precisa entender seu
papel e suas possibilidades dentro desse cenário. Na literatura, o desafio
passa por outro eixo: manter profundidade em um mundo cada vez mais acelerado.
Escrever e ler exigem tempo, silêncio e entrega, elementos que nem sempre
encontram espaço na lógica atual. Ainda assim, é justamente aí que reside sua
força. Tanto na comunicação quanto na literatura, o futuro depende da
capacidade de adaptação sem perda de identidade. Evoluir, sem diluir o essencial.UMAS E OUTRAS
ÉTICA: uma necessidade na vida de todo ser humano. Não sou uma pessoa saudosista. Vivo o presente e não dedico atenção exagerada ao futuro.
MÚSICA: amor
de índio – Beto Guedes.
AUTOR: Vários. Mas, atualmente destacaria Arnon
Grunberg.
LIVRO: Muitos. É difícil destacar um só, mas arrisco
“Leite Derramado”, do Chico Buarque.
QUAL PROJETO GOSTARIA DE REALIZAR? Na literatura, quero consolidar um projeto de contos. Na comunicação, desejo apresentar um programa
jornalístico que dialogue com o presente, com uma linguagem mais viva e próxima do ouvinte. E há ainda um outro caminho, mais silencioso: o da atuação. Tenho buscado me aperfeiçoar como ator, uma dimensão pouco conhecida, mas que também faz parte de quem sou.
COMO É A SUA ROTINA? Acordo às 5h, preparo meu café e sigo para a Musical FM. Lá, apresento o Manhã Musical, função que assumi após a saída da locutora Seli Valença. Fico no ar das 8h às 12h e, depois do almoço, viro redator comercial, uma faceta menos conhecida do meu trabalho. No fim, passo o dia inteiro na emissora. A escrita e a leitura ficam para a noite e os fins de semana, como um segundo turno silencioso.
QUAL SEU ESPORTE? Futebol, embora eu não me considere um “torcedor fanático”.
TIME DO CORAÇÃO? Sou flamenguista desde pequenininho (risos). Meu ídolo esportivo é Pelé, o musical é Michael Jackson e, na literatura, Carlos Ruiz Zafón ocupa um lugar especial. Mas minha escrita também carrega ecos de Arnon Grunberg, pela inquietação constante, de Kafka e Camus, pela tensão existencial, e de Bukowski, pela crueza sem filtro. São vozes diferentes, mas que, de algum modo, continuam conversando dentro de mim.
QUAL VIAGEM GOSTARIA DE FAZER? Gostaria de conhecer a Nova Zelândia, mas só a título de turismo mesmo.O QUÊ JAMAIS TERIA FEITO? Não costumo olhar para a minha trajetória com arrependimento. Mesmo o que deu errado teve seu valor, porque trouxe aprendizado. No fim, tudo contribuiu para quem sou hoje. Só tenho a agradecer.
TRÊS PERSONALIDADES EM CAMPO MOURÃO.
Eloi Bonkoski, pela postura profissional, generosidade e caráter admirável.
Tauillo Tezelli, pela fidelidade aos próprios princípios e pela capacidade de leitura da realidade, independentemente de ideologias.
Dr. Aroldo Gallassini, por sua trajetória e relevância, que falam por si.
CAMPO MOURÃO NA SUA VIDA: adotou-me como filho. Sou Campo
Mourão de coração!
FAMÍLIA: o
grande pilar para os que sabem valorizá-la.
RELIGIÃO: a
que mora dentro de você.
ESPERANÇA: que
o Brasil se torne um país em que a educação de qualidade não apenas informe,
mas forme cidadãos capazes de pensar, questionar e discernir.
SONHO: aquele
que vem acompanhado de bom senso e luta.
SAUDADES... DE QUEM E DO QUÊ? Não sou uma pessoa saudosista. Vivo o presente e não
dedico atenção exagerada ao futuro.
O MOMENTO ATUAL DA SUA VIDA: vou responder utilizando uma frase que ouvi numa série de tv: “simplesmente esplêndido!
LEGADOS QUE GOSTARIA DE DEIXAR: caráter, autenticidade,
generosidade e respeito ao próximo.
UM " GOLAÇO" QUE MARCOU NA SUA VIDA E
COMEMOROU MUITO... Na verdade, são dois golaços: meus filhos, os gêmeos Bárbara
e Rodrigo. Papai ama vocês!
SER CONVIDADO PARA ESTA ENTREVISTA DE DOMINGO: uma
honra, grato pela oportunidade.
RECADO AOS LEITORES: seja sempre uma pessoa autêntica, porque isso faz toda a diferença.