Ulisses sabe que, se ouvir aquela melodia, será atraído para os rochedos e provavelmente morrerá. Sua solução não é heroica no sentido tradicional. Ele não enfrenta as sereias de peito aberto, não tenta destruí-las e tampouco confia apenas em sua força de vontade. Ele pede aos seus homens que tapem os ouvidos com cera e ordena que o amarrem ao mastro do navio. E faz uma recomendação fundamental: por mais que ele suplique depois, não devem soltá-lo.
O que torna essa passagem tão poderosa não é a força de Ulisses. É a consciência de sua própria fragilidade. Ele sabe que pode não resistir. E, justamente por saber disso, cria antecipadamente um sistema de proteção contra aquilo que sabe que poderá dominá-lo. Quantos líderes hoje precisariam fazer algo parecido? Muitos vivem amarrados à ideia de que precisam ser fortes o tempo inteiro. Precisam ter respostas, tomar decisões, resolver conflitos, sustentar o time, proteger o negócio e ainda demonstrar segurança quando, por dentro, muitas vezes estão cheios de dúvidas.
O canto das sereias da liderança contemporânea tem muitos nomes. É o time que espera que o líder resolva tudo. É o conflito entre gerações que ninguém sabe como mediar. É a pessoa difícil que consome energia. É o profissional que perdeu o propósito e entrega o mínimo, mas espera que a organização resolva seu desconforto. É a pressão por resultados. É a solidão de quem ocupa uma posição em que todos esperam respostas, mas poucos perguntam como está quem precisa dá-las.
E existe ainda um canto mais perigoso: a própria necessidade de parecer forte. A crença de que demonstrar vulnerabilidade significa perder autoridade. A dificuldade de dizer “não sei”. O medo de admitir que uma decisão precisa ser revista. A necessidade de controlar para não parecer inseguro. A tendência de centralizar porque, no fundo, existe o receio de que o outro possa fazer diferente e talvez fazer melhor ou fazer pior.
Certa vez, acompanhei um diretor industrial responsável por duas plantas, cada uma com mais de 800 pessoas. Tecnicamente, era brilhante. Conhecia profundamente o negócio e tinha uma enorme capacidade de entrega. Mas liderava de maneira agressiva. Em nossas conversas, repetia algo como: “Se eu não resolver, ninguém resolve. Preciso mostrar que eu sei”. Parecia força. Mas, olhando mais profundamente, havia insegurança.
Ao precisar mostrar o tempo todo que sabia, ele acabava comunicando ao time que não confiava na capacidade das pessoas. E, quando o líder não confia, começa a controlar. Quando controla demais, as pessoas deixam de decidir. Quando deixam de decidir, tornam-se menos capazes. E quanto menos capazes parecem, mais o líder controla e se descontrola. Um círculo perfeito para produzir dependência. Ele era Ulisses antes do mastro. Acreditava que precisava enfrentar as sereias com os ouvidos abertos, demonstrando que seria forte o suficiente para resistir. Só que ninguém consegue permanecer indefinidamente em estado de resistência. O resultado foi ansiedade, microgestão e um time que não se desenvolvia porque raramente era convidado a participar verdadeiramente.
O ponto de virada aconteceu quando ele compreendeu algo simples e perturbador: alguns monstros não podem ser eliminados. Precisamos aprender a navegar com eles. A liderança não elimina a incerteza. Não elimina conflitos. Não elimina pessoas difíceis. Não elimina mudanças, pressões, ambiguidades ou a possibilidade de errar. O que pode fazer é criar condições para atravessar tudo isso de maneira mais inteligente.
Ele começou estabelecendo limites claros de responsabilidade. Criou espaços de participação. Passou a perguntar antes de responder. Aprendeu a dizer “não sei” sem interpretar isso como fracasso. Desenvolveu o time para que decisões pudessem ser tomadas mais próximas de onde os problemas aconteciam. E, principalmente, começou a perceber que descentralizar não era perder poder. Era aumentar a capacidade do sistema. Os problemas não desapareceram. Os conflitos geracionais continuaram existindo. Pessoas sem propósito continuaram aparecendo. Algumas decisões continuaram difíceis. A pressão por resultados permaneceu. Mas ele deixou de tentar resolver tudo sozinho. Passou a convocar o time para a corresponsabilidade.
É isso que a história de Ulisses pode nos ensinar sobre liderança: não precisamos vencer todos os monstros para continuar navegando. Precisamos saber quais batalhas são nossas, quais pertencem ao time e quais simplesmente fazem parte do mar. Ulisses não venceu as sereias. Ele as ouviu amarrado ao mastro. Sentiu o desejo de se entregar ao canto, pediu para ser solto e, mesmo assim, permaneceu preso às próprias decisões tomadas antes da tentação. Isso é uma imagem poderosa de autoconsciência. Às vezes, maturidade não é confiar que seremos fortes diante da tentação. É reconhecer antecipadamente onde somos frágeis e construir relações, rituais, limites e decisões que nos protejam quando a nossa força estiver menor.
A liderança contemporânea talvez precise menos de heróis e mais de pessoas conscientes de seus próprios limites. Porque o líder também sente medo. Também se cansa. Também se irrita. Também deseja reconhecimento. Também pode se sentir sozinho. Também pode querer controlar tudo para não correr o risco de descobrir que não sabe. Reconhecer isso não diminui sua liderança. Pode ser justamente o que permite que ela amadureça.
O verdadeiro desafio não é chegar a um lugar onde os monstros deixem de existir. É desenvolver a capacidade de continuar navegando apesar deles. Talvez a liderança seja exatamente isso: conhecer seus monstros internos, reconhecer suas fragilidades e, ainda assim, escolher conscientemente como navegar.
A pergunta que fica é: Qual é o seu canto das sereias? O que você precisa fazer hoje, antes que ele o leve para os rochedos?
Fonte: Site Grupo Bridge

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