25 de jun de 2011

COLUNA DA PROFª MARIA JOANA: Quanta diferença!



Na semana passada, a reportagem sobre a produção de vinhos da Itália, mostrando os vinhedos nas encostas das montanhas da terra natal de meus avôs, reavivou muitas lembranças. O tema da reportagem é a supremacia mundial dos vinhos italianos, produzidos, na grande maioria, em videiras milenares em terrenos inclinados em toda a Itália, do norte ao sul. O mesmo acontece com outros países produtores de vinho, como a França, a Alemanha. Nos muitos roteiros turísticos estão as viagens pelos rios e beira mar, observando as margens repletas de vinhedos.
Foi de lá que meus avós trouxeram a experiência que reproduziram nas terras pedregosas dos morros do vale do rio das Antas, na região de Bento Gonçalves e do rio do Peixe em VIDEIRA, Santa Catarina. Conseguiram pagar suas terras com muito trabalho, suor e lágrimas, “comendo o pão que o diabo amassou” como dizia minha nona Joana, fazendo “rotação de cultura das pedras” que eram mudadas de lado, como brinca meu marido... Eram pobres, mas honravam sempre seus compromissos, a palavra dada, o nome, a história, a escritura da terra paga (colocada em quadro como um troféu), o trabalho, o estudo...
Nada veio de graça, de brinde, nenhum pedaço de terra, casa, nenhum auxílio isso e aquilo, nenhuma bolsa família, vale gás, vale nada... As terras foram pagas, as casas e taipas de pedra (produto abundante no lugar) foram erguidas, muitas vezes em mutirão com os vizinhos, parentes, os pareirais foram plantados, estaqueados nos pés de plátanos como na velha Itália... E os filhos, netos estudaram, sem ganhar do governo uniforme, material escolar, ou qualquer incentivo governamental. Foram incentivados pelas palavras e exemplo dos pais que queriam para eles um futuro melhor, não queriam que passassem as mesmas dificuldades que passaram...
Quanta mudança de valores! O outra notícia da semana passada oficializou o que já se sabe a tempo: a prisão pela Polícia Federal de oito pessoas, inclusive José Rainha, autodenominado líder de trabalhadores rurais sem terra numa operação chamada de Desfalque. A PF descobriu que, em conluio que envolveu servidores do Incra, Rainha apropriou-se de verbas públicas e extorquiu assentados.
Entretanto, para o ministro Gilberto de Carvalho, a ação da PF “tumultua a reforma agrária” e “a relação com os movimentos”, pondo em dúvida a ação da PF. Gilbertinho, como é chamado por Dilma e Lula, não parece, por ora, convencido da gravidade das acusações da PF contra Rainha, apesar de ser figurinha carimbada, com quatro passagens pela cadeia na sua ficha corrida. O rol de crimes atribuídos a Rainha é vasto: Furto, formação de quadrilha, coautoria num par de homicídios, porte ilegal de arma… Até o MST, que não é santo, nega a Rainha o benefício da dúvida. Expulsou-o há anos. Como então, com esse currículo, continua recebendo verbas públicas supostamente destinadas à reforma agrária?
Em 2005, quando Presidente, Lula rendeu homenagens a Rainha, presente numa solenidade oficial. “…Porque o Zé Rainha é perseguido, de vez em quando é preso. E eu quero dizer aqui, como presidente da República, Zé, o seguinte…:”“…Você não é um companheiro de primeira hora, você é um companheiro que eu conheço há muitos anos, há muitos e muitos anos…”“…E eu sei que quando eu deixar de ser presidente, muitos que hoje são meus companheiros, não serão mais. Mas você continuará sendo meu companheiro."
Se Lula e Gilbertinho enxergam em Rainha um “companheiro”, que o levem pra casa. Mas que cuidem de afastá-lo das verbas públicas, do suado dinheiro dos impostos que pagamos... Mesmo as verbas que escapam dos desvios e chegam aos “sem terra”como são aplicadas? Onde estão os frutos do trabalho na terra? Onde estão as roças, as hortas, os pomares nos assentamentos dos “com terra”? Acompanho o esforço de agricultores que estão pagando as suas terras pelo projeto: Banco da terra, trabalhando duro, cuidando de suas lavouras, criação, construindo sua casa, na luta diária para viver, crescer, pagar suas dívidas como fizeram os antigos imigrantes... Quanta diferença!
Maria Joana Titton Calderari – membro da Academia Mourãoense de Letras, graduada Letras UFPR, especialização Filosofia-FECILCAM e Ensino Religioso-PUC-majocalderari@yahoo.com.br

2 comentários:

  1. Com todo respeito pelo ótimo texto,mas devo salientar que o tempo corrido mudou nossa forma de agir e pensar e nossa consciência...não podemos ver o passado com os olhos do presente, porém não posso deixar de colocar alguns adendos que muito se assemelha com o que vem ocorrendo hoje.
    Como muitos historiadores/pesquisadores estão publicando em suas atuais teses embasadas em documentos orais e escritos (fugindo do censo comum e da História oficial), sabemos que não existe santo na histórica e mal contada formação populacional do sul do país,principalmente em Santa Catarina.
    O governo brasileiro fez uma campanha na Europa,sobretudo Itália e Alemanha com o objetivo de trazer imigrantes para "embranquiçar" nossa população,com isso o que vimos foi um massacre (principalmente entre os anos de 1875 - 1925) com os verdadeiros donos das nossas terras,os indigenas. .
    O sul de Santa Catarina era ocupada pela etnia Xokleng que foi dizimada pelo governo para que os Italianos viessem,foram contratados jagunços conhecidos como "Bugrinos" para exterminar e expulsar os indígenas de suas terras,esses jagunços eram tratados como "heróis" pelos europeus por expulsarem seres selvagens e sem almas de suas novas terras.
    Não podemos enxergar o passado com os olhos do presente,mas essa era a realidade da época,os índios eram na visão dos nossos avós (meu caso bisavós) como pessoas sem alma,pagãos...por isso sua remoção não era pecado,com isso podemos entender que ninguém é santo nessa história,os imigrantes compraram terras sujas de sangue e isso está refletindo nos dias de hoje.
    Graças a Deus muitos historiadores estão revirando nosso passado,entre eles o padre Jurandir (doutor em História pela PUC).Teses estão provando que em nossa história o que menos existe é santo.

    Grande abraço
    Austin Andrade
    Graduando em História pela UEPR - Fecilcam.

    ResponderExcluir
  2. Concordo plenamente com o Austin.
    Ditado indígena:
    "Quando o último peixe for pescado, quando a última árvore for derrubada,quando o último rio tiver secado, os homens brancos verão que dinheiro não se come"

    ResponderExcluir