21 de abr de 2015

COlUNA DO MACIEL: BROSSARD, o brilho do Orador

Democracia neste país é relativa, mas a corrupção é absoluta” Paulo Brossard
A bicentenária cidade de Bagé incluiu, em 1999, o nome de Paulo Brossard de Souza Pinto entre as pessoas mais importantes de toda a história daquela cidade gaúcha, onde nasceu em 1924. Certamente ele integra qualquer lista das figuras mais importantes do Brasil.
Na travessia longa e tenebrosa do mar revolto, dos sombrios anos da ditadura pós-64 até aportar em terra firme ensolarada com os ventos da liberdade, Paulo Brossard foi notável  timoneiro. Sem esmorecer ante os percalços, manteve inabalável a convicção de um novo Brasil.
Pouquíssimas pessoas ocuparam cargos de maior relevância nos três poderes do Brasil, com singular eficiência e integridade, administrativa e moral respectivamente. Começou antes de ter 30 anos, eleito deputado estadual em 1954, reeleito duas vezes sucessivas para a Assembleia. Em 1966 se torna deputado federal pelo MDB, já se destacando como liderança política sul riograndense. Ele sintetiza a sua condição, “independência de ação política e parlamentar, sem chefes nem soldados”.
No Senado – mandato de 1975 a 1983, o Brasil passou a conhecer o tribuno dos discursos a descortinarem o momento histórico nacional, do poder tomado a força por militares que não exitavam em banir, exilar, prender os que ousassem deles discordar. Brossard não se curvava. Cada pronunciamento, declaração, cada encontro político eram circunstâncias para a defesa da liberdade e de um novo ordenamento jurídico. Era respeitado, temido ou admirável.
Apreciador da oratória magnifica, eu parava para ouvi-lo. O brilho da palavra, conteúdo revelador ou da reafirmação do político eloquente, o professor, mestre do Direito. A vocação política mereceu uma importante carta de apoio e declaração do voto para senador, do saudoso e grande escritor Erico eríssimo.
Na medida que a embarcação navegava, a travessia da acracia para a democracia, Brossard deu contribuições notáveis. Sem almejar cargos ou posições por vaidades e do poder pelo poder, antes de tudo eram para ele missões, encargos. Assim foi ministro da justiça em 1986. O sólido saber jurídico o guindou ao Supremo Tribunal Federal. Em 1993 presidiu o Tribunal Superior Eleitoral, comandando o plebiscito de 1993, sobre o sistema e forma de governo.
Aos 90 anos, morto na semana passada em Porto Alegre onde morava, ao lado da esposa, filhos e netos, o Brasil recebe dele o legado de um homem público íntegro, cultura política e jurídica, cátedra do pensador que tinha trinta mil livros, além daqueles que escreveu. A verve da tribuna, a fala nas em entrevistas atraiam para a atenção de muita gente, o uso correto do vocabulário, a peculiaridade do sotaque gaúcho. Era visível a elegância no trajar, sempre de terno, gravata, paletó e o inseparável chapéu, se não estava na cabeça, era segurado pelas mãos ou no colo, sem perder a classe de um destinto senhor. Tangentes aos discursos ou dos escritos, Brossard disse: “gosto mais de ser interpretado do que de me explicar”.              
Fases de Fazer Frases (I)
Confiar é se fiar. Com fio se fia.
Fases de Fazer Frases (II)
O que guardamos só o tempo dirá se tem valor. Sem guardar nem o tempo vale. 
Olhos, Vistos do Cotidiano
É bobo o debate quanto ao número de participantes desta  ou daquela manifestação como se fosse o mais relevante. Números não batembatem nos números.    
Reminiscências em Preto e Branco
Conhecia todos os bares e bebidas em Campo Mourão e na região, viajava muito. Pode o caro leitor supor tratar-se de um bebedor, mas não. Refiro-me-a um senhor que não aparentava a idade que tinha. Trabalhador incansável, companheiro das horas sem horas, tais como na convivência com o dono de um distribuidor de bebidas Antartica, o saudoso Isolino Sartor. Eles percorreram estradas vicinais, se não era pó, lama, obrigando a posar no caminhão.   

Se não fossem as aventuras, enrascadas, ele não teria tanta história para contar com riquezas de detalhes e a sensação que tudo ocorreu ontem. A cor negra, praticamente sem ruga, a afeição pelo sorriso franco e largo, com dentes de marfim, características marcantes. A voz grave e empostada de um locutor a narrar causos, piadas, ensinanças de uma vida. Nome de batismo Trajano Fernandes, 71 anos, muito conhecido (ou apenas) pelo apelido: “Nego Adão”. 11 de abril foi o último  aceno.
José Eugênio Maciel, colunista do jornal Tribuna do Interior, mourãoense, professor, sociólogo, advogado, membro da Academia Mourãoense de Letras e do Centro de Letras do Paraná.

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