11 de abr de 2011

COLUNA DO PROF. MACIEL: Cruzes, cruzamento final


Esqueço-me das horas transviadas... O Outono mora mágoas nos outeiros E põe um roxo vago nos ribeiros... Hóstia de assombro a alma, e toda estradas... Aconteceu-me esta paisagem, fadas De sepulcros a orgíaco... Trigueiros Os céus da tua face, e os derradeiros Tonos do poente segredam nas arcadas... No claustro sequestrando a lucidez. Um espasmo apagado em ódio à ânsia Põe dias de ilhas vistas do convés No meu cansaço perdido entre os gelos, E a cor do outono é um funeral de apelos Pela estrada da minha dissonância... [...] Fernando Pessoa – PASSOS DA CRUZ

Sonhos que estavam apenas no começo, ainda por serem sonhados. Vidas principiantes no próprio viver. Meninas e meninos, crianças mutiladas, desfeitas, esfaceladas, sepultadas levando consigo dores indizíveis, sentimentos presos no coração arrancado dos que sofrem a tragédia inominável, monstruosa. Procurar compreender plenamente tudo que aconteceu e ainda em face do impacto da violência, perda e do luto, pressupõe visões fragmentadas que ainda naturalmente carecem de ordenamento. Mas todas as visões são importantes, policial, jurídica, psicológica, psiquiátrica, histórica, sociológica, cultural, política, educacional, para citar algumas. Ao conter nas análises o elemento emocional, assim como o racional, nos deparamos com um fato social que não tínhamos como País vivenciado, sem, portanto, termos experiências concretamente de tal proporção e intensidade, haja vista os depoimentos sobre a tragédia. Sem mencionar o mundo, o Brasil inteiro sentiu-se profundamente envolvido, estarrecido. Na qualidade de professor de Sociologia, em todas as aulas do período da manhã e do noturno, os estudantes queriam que o tema fosse analisado, que eu relatasse, refletisse com eles que expuseram, mais do que narrar o que tinham assistido e lido, expressaram a representação dos acontecimentos e os seus desdobramentos. A solidariedade do brasileiro espraiou-se intensa e rapidamente, na oralidade, nas orações, na presença de quem mais próximo se irmanou, como os profissionais da saúde que estavam descansando e tão logo souberam do fato se apresentaram nos dois hospitais para ajudar. Das pessoas que foram depositar flores junto ao muro da escola, com mensagens às vítimas, dos que acorreram para confortar os familiares, muitos dos quais conseguiram tomar a iniciativa de doar os órgãos dos seus entes queridos. A dor não diminui nem agora nem com o tempo. Entretanto, a dor poderá ser suportada à medida que as pessoas recebem conforto, amparo de toda natureza, espiritual, profissional, tudo para que elas possam buscar o prosseguimento da vida delas, especialmente dos pais e avós, dos familiares e dos estudantes que perderam os colegas, amigos deles e que, pela própria idade, vivem pela primeira vez a brutalidade da perda, sobretudo trágica.

Fases de Fazer Frases (I) Não levamos nada da vida, é a morte que carrega tudo, com elas.

Fases de Fazer Frases (II) Ao frasear, friso, sem empregar o frisador, ainda que frise a dor.

Olhos, Vistos do Cotidiano (I) “Orelhões são tema de reunião em CM”, intitulava notícia da primeira página desta Tribuna da última quarta. Segundo ela, 20% dos aparelhos de uso público estão com algum tipo de defeito, sendo que 60% são por causa de vandalismo. Chama a atenção se propor uma campanha de conscientização junto à população nesse sentido. O certo é que uma criancinha não destrói por ser ela pequena e por não ter forças, por exemplo, arrebentar o fio envolto por cabo de aço. E quem o faz é capaz de cinicamente alegar que a mãe ou a escola não ensinaram que não se devem destruir os telefones. É nessa hora que os orelhões deveriam ser puxados desde cedo e depois de grandes arrancados mesmo.

Reminiscências em Preto e Branco O dia 10 de abril de 1964, no início da ditadura militar no Brasil, o golpe começava a violar a liberdade, divulgando a lista dos cassados pelo Ato Institucional n 1 (que, aliás, não tinha tal número, pois acreditavam que seria o único, o número um veio depois e chegou-se a mais outros quatro, todos típicos do golpismo), entre eles os opositores do regime que fazem parte da história política do País: João Goulart, Jânio Quadros, Luiz Carlos Prestes, Miguel Arraes, Celso Furtado, Darcy Ribeiro e Plínio Arruda Sampaio. Gostando deles ou não, tais nomes retornaram ao Brasil e foram eleitos pelo povo. Se os nomes deles são ainda hoje muito lembrados, os presidentes que assaltaram o poder e impuseram a ditadura, são lembrados também, pelas atrocidades e por nunca terem o voto do povo. E não se faz democracia sem o voto, com todos os percalços que possam dele fazer parte.

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