6 de mar de 2010

COLUNA DO NERY THOMÉ: O mehor e o pior da humanidade


Primeiro foram as imagens da tragédia no Haiti, que nos chocaram principalmente pelas histórias de mais de 200 mil vidas encerradas de maneira tão drástica, a miséria e o desespero de quem sobreviveu. Mas também foi impossível não observar com indignação quando as redes de televisão exibiram cenas da degradante situação humana que, mediante tal momento de caos, encontrou nos saques a lojas, supermercados, casas sob escombros, talvez uma resposta para suas necessidades mais essenciais.

No Chile, vítima de um dos maiores terremotos de sua história, seguido de tsunamis que arrasaram a costa do país, também é impossível não se condoer com as matérias que nos mostram a tristeza de um povo que viu sua vida mudar de uma hora para a outra. As cenas de saques a supermercados, com pessoas acusando o governo de não providenciar o abastecimento das necessidades mais essenciais e de comerciantes que aproveitam a tragédia alheia para ganhar em cima do desespero de muitos, também nos choca.

Concepción, uma das cidades mais atingidas pelo terremoto, é a que mais registra ocorrência de saques, principalmente comida e água. No entanto, as emissoras de televisão conseguiram flagrar pessoas carregando das lojas televisores, máquinas de lavar roupa e até geladeiras.

Embora muito aleguem que o motivo dos saques no país chileno seja o temor do racionamento, o que dizer das pessoas que levaram para suas casas os eletrodomésticos acima citados? E as casas destruídas que também estão sendo invadidas por pessoas em busca do que ainda ficou inteiro, fazendo com que seus proprietários tenham que improvisar sua própria segurança?

Os saques, a violenta disputa por comida, restos ou trapos no Haiti pouco nos surpreende, afinal, o país, cuja maioria da população já vivia na miséria, atingido por tal tragédia, torna-se quase impossível um pouco de civilidade, amor ao próximo e respeito à propriedade alheia.

No entanto, o Chile é considerado a economia mais próspera da América Latina, além de ser o país latino que atingiu melhores resultados nos exames internacionais de aprendizagem na educação fundamental. O que explica, portanto, que tantos aproveitem a desgraça alheia, a falta de organização dos serviços públicos para pilhar casas destruídas, supermercados fechados e lojas dos mais diferentes artigos? Será que, acuados após uma experiência tão traumática, exibamos o pior de nós, o nosso lado mais irracional?

De outro lado, a mobilização de milhares de pessoas em diversos cantos no mundo, procurando ajudar as vítimas das tragédias, ainda é possível acreditar na bondade do ser humano, que, vencendo anestesia que a profusão de notícias nos impõe todos os dias, faz sua parte, tornando concretas nossas melhores intenções.

São lindas histórias de pessoas que doaram o pouco que tinham para ajudar os que perderam tudo; voluntários que não medem esforços para tornar o desespero das vítimas mais fácil de ser suportado. É a linda face que a humanidade nos apresenta, quando realmente nos aproximamos dos ideais cristãos de irmandade e fraternidade.

Talvez seja em momentos extremos como na ocorrência de tragédias que mostremos de maneira mais concreta do que somos feitos, nosso lado claro, belo, fraterno, convivendo ao lado da obscuridade, irracionalidade e egoísmo. O que nos resta é esperar que o lado bom vença sempre e que vejamos mais exemplos do melhor do que do pior da humanidade.

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